domingo, 14 de junho de 2009

Déjà vu



Ele não pensava que chegaria, mas havia chegado. O dia em que todas as pessoas eram iguais. Percebeu que não importava para quem ele olhasse pelas janelas de seu apartamento, no terceiro andar, via sempre os mesmos rostos.

Desde o nascer do grande brilho amarelo no céu, era a mesma coisa naquele dia. Um permanente déjà vu de sujeitos que iam e vinham diante do alcance da vista de suas janelas. Homens engravatados, segurando pastas, mulheres de terninho e sapato baixo. Tudo igual.

Na hora do almoço, sentia seu peito doendo, como se para cada batida houvesse um lampejo de dor pelas pessoas que se perderam atrás dos rostos e corpos idênticos. Algum dia já tinham sido algo diferente do que ele via?

As vozes também pareciam as mesmas, como quando se ouve na igreja o coro fervoroso dos fiéis. Ele ouvia um só timbre grave e melancólico. Começou a pensar que o problema fosse ele.

No final da tarde, desabafou para si mesmo indagações e hipóteses. Ele, que era tão racional, como explicaria aquele dia? Seus pensamentos podiam ser ouvidos à distância.

– E se este momento já tiver sido vivido? O que resta faltar? Em um mundo de iguais, quem está ao meu lado? Eu mesmo? Se for, então estou sozinho!

Parecia aterrorizador demais para ele levar adiante uma vida duplicada, treplicada, quadruplicada... Essa vida seria a pura solidão.

Logo com ele, que já estava cansado de se sentir sozinho, acontece uma coisa dessas. Definitivamente, esse não era um dia para constar no calendário.

– Os mesmos sonhos? As mesmas paixões? Medos também? Conclusões?

– Devo estar vendo todos iguais porque sou igual a eles. Não pode ser...

Já desnorteado, em seu quarto, olhou para o Livro Sobre o Nada, do poeta que mais amava – Manoel de Barros –, e o abriu na página marcada, sob o filete de luz de pôr-do-sol que ainda atravessava sua janela:

“Talvez fosse a maneira que a mãe encontrou para aumentar as pessoas daquele lugar que era lacuna de gente.”

O pequeno-grande poeta da linguagem, do nada, das formigas e das árvores lhe havia falado como quem sussurra no ouvido a mais doce melodia de amor e compaixão pelo outro.


Eric Duarte


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