domingo, 21 de junho de 2009

Linguagem maternal




Sem estilo

Sem forma

Sem norma

Sem rigor.


Sem parar.


Vou compondo versos

Na infinita

Fábrica de metáforas


Pra deixar nascer

Dessa mãe fabril,

Meus antiobjetos desreais:


Um diapasão de pessoas –

que é pra melhorar a afinidade pessoal.


Um triturador de rancores.

Um desentupidor de corações.

Um ralo pra desamores –

que é pra escorrer os horrores

de toda vida desigual.


Um cortador de solidão.

Um pente carinhoso.

Um bojo de sonhos.

Um chão de compaixão.


Um chuveiro lírico!


Um brinquedo de palavras –

que é pra eu fazer poesias pueris

e me distrair

infantilizando

todo o universo que não entendo.


Um Livro Sobre Nada –

que é pra eu catalogar os desobjetos manoelinos,

principalmente o parafuso de veludo

e o abridor de amanhecer.


Um veículo estático –

que é pra eu ir sem chegar,

se eu quiser ir embora de casa.


Um destilador de palavras –

que é pra eu descoisificar as coisas,

expurgando-lhes seus anseios coisais

e mostrando-lhes

gota a gota

seu real.


Um arquivo vivo –

que é pra ele me lembrar tudo,

sempre que necessário,

sorrindo e cantarolando

a história de todos nós,

como um menino a brincar de roda,

ou como quem anuncia uma boa nova,

entusiasmado.


Um caminho de luares

Uma garrafa de emoção

Um barril de amor

E algumas taças de desejo –

que é pra eu me embebedar.


Um extintor-maçarico –

por precaução, se alguém quiser

apagar o fogo da paixão.


E por fim,

Uns óculos de contemplatividade –

que é pra eu misturar

contemplação mais atividade,

e enxergar o ser da mãe.


(Eric Duarte)


4 comentários:

  1. Eric,

    Não consegui chorar (tenho dificuldade nesse tipo de espontaneidade), mas senti-me prendendo a respiração até a última linha, como se estivesse lendo um poema altamente descritivo sobre o que desejo para minha própria vida e parte de como eu a vivo. Abraço fraterno.

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  2. ahh pião, as coisas e as palavras... tu tá me saindo um novo Drummond hein! que viva a espontaneidade em frente dos objetos belos (como esse poema): porra!
    o grande mistério, dizia o Mikeal Fucker, é haver mais real do que palavras, e mais de uma palavra pra uma só coisa do real... dai que é possível poetar. cria mais brinquedos ai cumpadi!

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  3. Ricardo Matsukura Lindemeyer23 de junho de 2009 05:06

    Nada como começar o dia testemunhando a bela erupção poética de um grande companheiro, parceiro nessa louca experiência que é viver. Mineiro, parabéns e continue nessa bela jornada, nos alimentando de felicidade e saber.
    Grande abraço

    Ps: Drummond era mineiro... Vc tbm... Os mineiros ainda vão conquistar o mundo. Depois dos catarinas, é claro :)

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  4. Isso aeh, Ricardo, os mineiros vão conquiistar o mundo...rsss.
    Drummond é o grande mestre.
    Eu escrevo poeminhas, cheios de rimas bobas, pra me libertar de mim mesmo...rsss.

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