sexta-feira, 12 de junho de 2009

Sendo livre, “que eu tenha a coragem de me enfrentar!”



O enunciado apresentado aqui como título é de Clarice Lispector. Acredito que, como ela, todos deveriam ter sua Hora da Estrela (título de um de seus livros): um momento de profunda alegria sem fazer nada em um quarto de pequenas dimensões e sem ninguém ao redor. O motivo? O encontro consigo mesmo. O desejo da mais pura e absoluta liberdade. Aliás, “liberdade é pouco”. Fazendo minhas as palavras dela: “liberdade é pouco, o que eu quero não tem nome”. É preciso coragem para isso.

Liberdade e coragem são duas faces do mesmo rosto: parafraseando Foucault no final de As palavras e as coisas, elas são duas faces do mesmo rosto que se desvanece, como à beira do mar um rosto na areia. Essa metáfora reclama mais do que efemeridade. Se o homem é uma localização na história, e por isso sua constituição não envolve qualquer essência ou metafísica, a liberdade é, eticamente, seu bem maior. Liberdade não em contraposição a uma espécie de livre-arbítrio, pois este seria, no mínimo, imposto. Teríamos realmente escolha se nos fossem dadas as opções? As opções são dadas: por exemplo, só temos essa maneira de pensar. Por isso é difícil aceitar o discurso do livre-arbítrio. Eu quero mais do que livre-arbítrio. O que eu quero não tem nome.

Esse desejo é transgressor. Ultrapassa todos os limites. É do homem desenhado na areia. Exatamente por isso o desejo demanda uma extrema coragem, algo além de apegar-se a determinação do presente pelo passado, pois essa determinação é contingente. Se visto como clivado, o homem descentrado possui um exterior em seu interior; quanta coragem é preciso, então, para enfrentar-se! Equivale a enfrentar o mundo inteiro!

Mais uma vez: quero mais que a liberdade. O que eu quero não tem nome. Não para permanecer na dúvida ingênua, essa atroz e pungente covarde! Ela é a medida antagônica, porém não menos covarde, da permanente certeza absoluta. Em certa medida, ambas são efeitos do não-trabalho sobre si mesmo. Tanto uma quanto outra encarcera o homem movediço.

Que espécie de desejo é esse? Ele é feito para que eu possa ter a chance de inventar a mim mesmo? Penso que sim. Talvez Nietzsche tivesse razão: como em todos os outros casos, trata-se, em última instância, de uma vontade de “potência”. Entretanto, saber do que se trata é algo que diz respeito ao logos (discurso filosófico), e não ao ergon (ação). A separação entre esses dois preceitos remonta ao início da filosofia ocidental, embora possa ter existido desde que os primeiros homens foram capturados pela linguagem, e assim, alguém, ao pensar, destituiu algo de seu sentido (filosofou).

Se a realidade da filosofia não está limitada ao jogo intrínseco do logos, pois este só constitui uma realidade “completa” se o ponto de partida a ser tomado é o ergon, não resta alternativa a não ser misturar a atividade (ação) à contemplação. Esta última entendida como uma espécie de discurso filosófico “selvagem”, porque ele visa destituir as coisas de seus sentidos para admirar o incrível acontecimento da produção desses sentidos.

Exerçamos a Contemplatividade!

Eric Duarte


4 comentários:

  1. o que eu quero é não ter medo de jogar.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Ta moderno heim moço...

    Com blogt e entrevista no youtube...

    Felicidades sempre...

    Abraçao

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