terça-feira, 18 de agosto de 2009

Cartas para enxergar a escuridão



Voltando a postar, quero deixar aqui um trecho da última carta que escrevi para o meu grande amigo e afilhado Rodrigo, com a permissão dele, claro. Faço isso por causa do desejo de compartilhar com mais pessoas meus devaneios a respeito da contemplatividade e das possíveis implicações de se pensar profundamente a fé. Esse texto é uma resposta a uma carta fenomenal que meu afilhado havia me mandado. Alegra-me muito nossa amizade e nossas discussões sobre O sentido. Bom, espero que vocês gostem. Abraços. Eric




Caro amigo, a leitura de sua carta me levou para um lugar onde eu me redobro sobre mim mesmo; um lugar onde, paradoxalmente, movimento-me do mundo externo para o meu interior, por meio da força vetorial da exteriorização de meu interior.

Nesse lugar, eu cegamente tento acender uma vela que está sobre uma mesa de estudo rodeada pela sabedoria difusa de alguns livros errantes e, invariavelmente, metafísicos. Foi nesse lugar que deixei, sobre minha mesa, meus óculos de contemplatividade. Sem enxergar nada ao meu redor, tateio em vão por sobre a mesa, a procura de uma caixinha de fósforos para tentar acender a vela. Pego-me pensando por alguns instantes que não tenho muita certeza de que eu havia deixado essa caixinha ali. Continuo a tatear e, de repente, minha mão direita depara-se com a superfície tátil de meus óculos. Eu, que queria encontrar minha caixinha de fósforos para acender a vela e enxergar alguma coisa, acabei encontrando meus óculos de contemplatividade.

Suas linhas espessas, profundas, foram me fazendo colocar esses óculos. Tão logo eu os coloquei, comecei a, paradoxalmente, enxergar a escuridão. Isso mesmo. São óculos avessos. São óculos para enxergar a escuridão. Eles são necessários para mim, porque antes de eu os colocar, não conseguia enxergar o elemento mais importante desse quarto todo: a chama da vela. Sim, a vela já estava acesa. Por que eu não havia percebido essa chama? Porque havia claridade demais, uma vez que os livros estavam abertos por sobre a escrivaninha e a claridade do sol entrava pela janela – o sol, esse grande astro que aqueceu os rostos de todos os homens que existiram na história de nós mesmos. Eram essas as claridades que me cegavam, apesar de eu ter percebido, com os óculos, que havia uma certa semelhança entre essas luminosidades (a dos livros e a do grande astro) e a luminosidade da chama da vela. Mas eu não entendia o porquê de as duas primeiras terem me cegado.

Esse momento de enxergar a vela foi de contemplação, atividade possível devido ao intermédio desses óculos de escuridão. Fechar os olhos não adiantava, só me alienava. Era preciso que eu enxergasse, de olhos abertos, a escuridão. Isso para, então, com esses óculos, contemplar a paciência com a qual a chama ia, em sua dança volátil e incandescente, iluminando o espaço ao redor, enquanto se consumia a si mesma.

Somente com esses óculos foi possível contemplar a sublimação da vela. Sublimação não no sentido “psicanalíptico” do termo (e aqui o “p” antes do “t” é intencional...). Ela se sublimava exatamente pelo movimento de queimar-se a si própria, de derreter-se a si própria.

Com esses óculos, eu percebia que a vela teria uma duração finita; percebia que logo ela deixaria de se irradiar e restaria somente uma porção de parafina sobre minha mesa. Pensei, assim, no propósito dessa vela. E aí formulei uma série de perguntas: será que ela estava ali, acesa, para que eu a contemplasse com meus óculos? Será que sua sublimação era exatamente para que eu, com os meus óculos avessos, me percebesse iluminado por sua chama? Será que aquela chama finita estava ali para me mostrar que sem os óculos avessos da contemplatividade era impossível enxergá-la, já que o quarto estava claro demais? Será que a chama incandescente estava ali para me lembrar que somente com os óculos da escuridão era possível ver que, apesar de ser finita, ela tinha uma certa similaridade com as luminosidades que haviam me cegado? Será que era isto? Será que era para provocar em mim a atividade de contemplar sua luminosidade finita da diferença-semelhança?


Foi quando percebi que o propósito da vela era amar a luminosidade de sua chama, naquilo em que essa luminosidade se diferenciava das outras luminosidades. E ao mesmo tempo, seu propósito era amar sobremaneira a luminosidade que irradiava dela mesma, a ponto de ela se entregar a essa luz. O motivo de tal entrega era devido à sua semelhança com, primeiramente, a luz do grande astro e, em segundo lugar, a luz atenuante dos livros. Era como se a vela estivesse ali para se sublimar em sua diferença-semelhança; para se entregar por amor a todos os pontos do quarto onde a luminosidade de sua chama atingia. E eu me incluía nesses pontos, pois estava naquele quarto. Sua carta havia me levado para lá.


Um comentário:

  1. Amigo,
    Quanto folêgo pra essa escrita. Gostei!!!
    Acabei me infiltrando nesse espaço, comecei a brincar com um conto. Tenha certeza que será um espaço bem variado, como eu, heterogênia por natureza kakakak
    Grande abraço!
    Kianda - Dé

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