terça-feira, 22 de setembro de 2009

Alucinando Foucault



Ao terminar de ler Alucinado Foucault, de Patrícia Duncker, uma professora inglesa de teoria feminista e literatura, fiquei chocado, senti uma inquietação enorme e uma fascinação trêmula. Acho que tive alucinações... Explico-me. No início do romance, me identifiquei amplamente com o protagonista, um doutorando em literatura de Cambridge que pensa que “escrever uma tese é uma atividade solitária obsessiva”. Perfeito. E as verbalizações de meus pensamentos continuam: “a pessoa com quem você passa mais tempo é aquela sobre quem você está escrevendo”; “as bibliotecas universitárias são como asilos de loucos, cheias de pessoas perseguindo espectros, premonições, obsessões”. Bingo! Bem, a história do livro é a seguinte: esse doutorando conhece uma garota na biblioteca da universidade usando a velha tática do “você tem fogo?”. Isso me lembrou um amigo... Bom, ela é uma germanista “porreta” e “arretada” – no caso dela, essas nossas duas palavras cabem perfeitamente como em nenhuma outra língua. Ela convence o cara (não sabemos o nome do protagonista nem de sua namorada) a ir atrás do autor sobre o qual ele está desenvolvendo sua tese, usando o argumento de que este autor está vivo, ao contrário do que se pensava, e mais, que ele estava em um hospício e precisava de ajuda. O doutorando, que sempre fica desajeitado diante da praticidade e do dinamismo de sua germanista (mais um identificação minha...), estuda um escritor fictício chamado Paul Michel. Alias, é fascinante como Duncker constrói este escritor, fazendo dele uma espécie de alter ego de Michel Foucault. Paul Michel é um escritor francês, homossexual, que tem sangue de militante e uma acidez discursiva. Antes de encontrá-lo, o estudante lê algumas cartas que Paul Michel havia escrito para Foucault, mas que nunca haviam sido entregues, e descobre que toda a produção literária de Paul havia sido escrita para um só leitor: Foucault. Paul era apaixonado por Foucault e havia escrito livros literários para ele. No livro de Duncker lemos essas cartas, que são deslumbrantes, pois, mais do que declarações de amor, elas são respostas de Paul à produção intelectual do filósofo. Mas o que realmente chama a atenção no livro é o encontro do estudante de doutorado com Paul Michel, o autor que ele havia lido e relido. Esse era, portanto, o encontro do leitor com o escritor. Logo fiquei imaginando como deve ser interessante um doutorando ter a oportunidade de conversar um pouco com o autor sobre o qual ele estuda para elaborar sua tese. Sem querer ser pretensioso, revelo que fiquei me perguntando: no meu caso, que estudo Foucault, o que será que ele me diria a respeito de minha proposta de pesquisa? Fiquei imaginando também como seria o encontro de minha amiga Márcia Bianchi com o poeta Ferreira Gullar. No caso dela isso é possível, já que o poeta está vivo. Já pensou como seria? Ok, estou tendo alucinações demais... Para terminar este texto, antes que eu conte todo o livro, posso dizer que o encontro do doutorando com Paul Michel aborda de modo entorpecente a questão da relação entre leitor e escritor, e compõe uma espécie de resposta de Duncker ao que ela pensa sobre essa relação. Para a autora, “o amor entre um escritor e um leitor não é nunca celebrado”. E não se pode provar esse amor, “ainda que muitas vezes falemos com extraordinária intensidade sobre um escritor que descobrimos, amamos, lemos e relemos”. Nas palavras de Duncker: “Ler é uma misteriosa, estranha, íntima experiência. Nós sabemos que há alguém na outra ponta da leitura. Eles estão muitas vezes próximos, terrivelmente presentes. Nós os ouvimos penosamente”.



Um comentário:

  1. Bravo!!!
    Quem diria, meu amigo Eric lendo uma feminista - e gostando - isso é muito bom (risos). Gostei muito do texto.

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