terça-feira, 13 de outubro de 2009

De mudança



Naquele final de tarde de sexta-feira, ele saiu mais cedo da redação do jornal em que trabalhava. Passou na tabacaria e comprou três charutos baianos. Três unidades do Dona Flor, versão Corona, porque ele estava querendo se sentir leve como o aroma e o sabor daquele tabaco. Talvez para suavizar a vida solitária que levava, ou atenuar a saudade de seu grande amor distante. A ocasião era especial: ele estava querendo voltar para o interior de Minas Gerais no domingo, pois a capital já não o agradava como antes.

Chegou em casa e logo foi retirando os sapatos. Serviu uma dose de uísque, calçou os chinelos pretos, pegou na estante de livros seu cortador e seu isqueiro. Sentou-se na mesa da biblioteca e guilhotinou o charuto num só golpe rápido e preciso. Até parecia que após tanto tempo de desesperanças ele havia voltado a se sentir confiante em relação ao futuro. Aproximou o Dona Flor do nariz para sentir a agradável fragrância e incitar as papilas gustativas, antes de começar a acendê-lo. Bebericou seu copo. Um minuto de maçarico aceso foi o suficiente para que ele pudesse sentir o gosto da primeira baforada, que sempre lhe trazia à memória a lendária história de que as mulatas baianas enrolavam as folhas de tabaco nas próprias coxas. Inventaram isso para vender charutos, pensou.

Era assim mesmo: as baforadas lhe faziam pensar, racionalmente. Havia uma estranha ligação entre baforadas, racionalizações existenciais e provocativas, e ácidas críticas. Na segunda baforada, pensou que ele não tinha os braços necessários para abraçar o mundo; e que ele havia saído do interior e ido para a capital porque queria dar conta do mundo com seus braços, num gesto quase infantil, como se a solução para sanar a sensação de sentir-se estrangeiro em sua cidade natal interiorana fosse se mudar de lá. Uma vez estando na capital, percebeu que essa sensação tinha se intensificado, principalmente porque ele enxergava somente três aspectos desta cidade: um latente individualismo exacerbado, uma suposta imagem de ingênua bondade e uma espécie de bucolismo dissimulado.

A terceira baforada lhe fez pensar no funcionamento urbano de sua cidade natal. Um gole e começou a analisar como foi possível que uma grande estatal produtora de aço, construída para trazer dignidade ao povo mineiro, se transformasse em uma corporação privada usurpadora de talentos, que contribui fortemente para a aniquilação ao máximo de qualquer pensamento crítico ou libertário que possa emergir na cidade. Quando foi que deixamos uma organização como esta definir nossos parâmetros citadinos e até psicossociais? Pensou enquanto aspirava e expelia a fumaça de sua boca.

Neste momento, já se sentia mal como antes, igual aos últimos anos de sua permanência na cidade em que nascera. Uma indignação já tomava conta dele, e tudo o que ele queria era mais uma baforada e mais um gole. Percebeu que entre ele e sua cidade natal havia um espaço simbólico construído exatamente por seu exílio, mas que agora era irrevogável. Neste espaço, ele forjou significados para suas lembranças de operário mal remunerado. Por um lado, elas significavam a mais pura inércia; por outro, eram uma grande fonte na qual ele podia recorrer sempre que fosse necessário iniciar um movimento em direção aos seus sonhos, exatamente como ele havia feito quando tinha 19 anos, idade da fuga de sua cidade proletarizada.

Goles. Mais baforadas. Muitas baforadas. Uma porção de pensamentos. De repente, sua mente lhe assustou. Ele percebeu que seu retorno para o interior não significava um retorno a quem ele era, mas um retorno a quem ele não poderia ter sido. Por isso não era retorno coisa alguma. Não havia volta para ele. Mudar-se para o interior, no domingo, seria um deslocamento errante para um lugar do qual ele queria fugir? O que raios ele faria, então?

Seu charuto chegou ao fim. Gentilmente, ele o colocou sobre o cinzeiro, sem apagá-lo, para que seu companheiro morresse dignamente. Serviu mais uma dose. Ele saboreava no charuto a libertação de seus pensamentos, assim como Álvaro, seu amigo confidente e cliente da mesma tabacaria. Num dia de charutos e pensamentos, Álvaro lhe disse que havia vivido, estudado, amado e até crido, mas que tudo isto era estrangeiro, como tudo.

Foram essas palavras de Álvaro que lhe fizeram se mudar no domingo.


(Eric Ferreira, Duarte, Guerra, Santos...)



Nenhum comentário:

Postar um comentário

 
BlogBlogs.Com.Br