sábado, 24 de outubro de 2009

Filho de mãe telúrgica



Seu nascimento foi normal. Parto normal. Ele veio ao mundo inocente, sem saber que tudo estava pronto por aquela que carinhosamente o havia adotado. Ela cuidou de tudo: construiu um bom hospital para ele nascer e, claro, para o caso de ele adoecer; preparou ligeira, bondosa que era, os parques para ele se deleitar quando criança, os clubes para ele nadar e namorar as garotas nas matinês de dança quando adolescente. Ela cuidou também do bairro para ele morar. Fez ruas e praças bonitas para lembrar a toda a gente que filho sem mãe não é homem, é bicho insolente.

Já rapaz, de barba no rosto, ela o proveu de vários ensinamentos metalinos; o ensinou a pensar ordinariamente; mostrou-lhe que seu propósito era perpetuar a grandeza da mãe, dedicando-se àquela que generosamente o permitira viver em tão boas condições. Ele era grato por ter essa mãe telúrgica. Sua retribuição àquela que lhe dava educação era materializada na devoção que ele sentia e professava a ela. Não havia lugar na cidade que não lhe lembrasse sua mãe metal-santa.

Quando já maduro, ela lhe deu uma casinha para morar, e o lembrou que filho que abandona a mãe é ingrato e não merece se dar bem na vida. Por isso, seu trabalho era somente cuidar da mãe. Foi para isso que ele viera ao mundo. Esse era o motivo de sua dedicação irrestrita e total a ela. Após ele se casar com uma das garotas das matinês, quem cuidou de seu filho foi aquela que havia cuidado dele. Avó caridosa que era, não tirava os olhos de seu neto nem por um instante. “Tudo o que construí para seu pai é para você também, meu netinho”, dizia com olhos zelosos. Ele sempre agradecia à mãe pelo cuidado com seu filho. Sua felicidade era tanta que sua labuta era executada com a mais absoluta perfeição algorítmica. Seu nome era Operário Padrão.



(Eric Ferreira)


2 comentários:

  1. Bruno Wagner Lucas26 de outubro de 2009 14:00

    Confesso ter dado boas risadas ao ler.

    Neste mesmo mundo, onde filho afronta a mãe, costuma-se ser deserdado. “Mãe” cujo amor está condicionado a uma lógica psicótica. Sim, psicótica, pois, onde mesmo a mãe é tudo, o filho se torna um "a-sujeito".

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  2. cara, muito bacana a sua prosa...
    ta add..
    a propósito, sou amigo do seu irmão Igor.
    flw.

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