quarta-feira, 7 de abril de 2010

Questões sobre a humildade



O orgulho impede que reconheçamos tudo o que não somos. Ele impede que seu imediato antagônico, a humildade, seja o terreno fértil por onde caminhar. Vou abordar rapidamente o orgulho pela via antagônica, pela via da humildade. Estou lendo o Pequeno tratado das grandes virtudes, de André Comte-Sponville, um filósofo e professor francês de que tenho aprendido a gostar. Comte-Sponville teve uma criação católica na infância, mas é ateu. Apesar disso, defende que é possível uma espiritualidade no ateísmo. Por exemplo, através do cultivo de virtudes como a humildade, a simplicidade, a pureza, a boa-fé, a doçura, o amor, a coragem, a misericórdia, a compaixão etc. Para ele, essas virtudes são independentes do uso que delas se faz, bem como do fim a que visam ou servem. Essas idéias são desenvolvidas a fundo em seu livro O espírito do ateísmo. Bem, este ateu muito perspicaz tem me ensinado muito sobre a fé, por mais estranho que isso possa parecer. A virtude, para o autor, “é uma disposição adquirida de fazer o bem”. E ele acrescenta no Pequeno Tratado...: “o bem não é para se contemplar, é para se fazer”. Acredito que a luta contra o orgulho e a busca pela humildade devem ser convertidas em forças motrizes que nos levem a fazer o bem (a nós mesmos e aos outros). Nesse sentido, talvez possamos inverter a lógica ocidental e pessimista da luta contra o pecado, passando-a para a luta para se fazer o bem (virtuoso) a si e aos outros. Esse bem virtuoso é objeto da moral, claro, mas relaciona-se à ética.

Voltando a humildade, para Comte-Sponville ela é a virtude do homem que sabe não ser Deus. Ela é uma virtude lúcida, sempre insatisfeita consigo mesma. Está vinculada ao amor à verdade e a ele se submete: “a humildade é esse esforço, pelo qual o eu tenta se libertar das ilusões que tem sobre si mesmo – porque essas ilusões o constituem – e pelo qual ele se dissolve”. De fato, sabemos que o orgulho cria ilusões como a do culto ao eu. “Sem a humildade, o eu ocupa todo o espaço disponível, e só vê o outro como objeto ou como inimigo”. Utilizando de modo selvagem os termos da psicanálise, a leitura de Comte-Sponville me permite dizer que a humildade é uma ferida narcísica. O homem humilde é ferido, chagado. Acabo me direcionando, neste ponto, à questão das chagas, como as de São Francisco de Assis. Quando sua majestade, o eu, perde o trono, parafraseando Freud, é para ferir-se. Penso que cabe a nós, cristãos, no trabalho com o simbólico, significar a nosso modo esses ferimentos. O que vocês acham?


Um comentário:

  1. Amigo,
    Estou mastigando seu texto, gostei da abordagem, pasmei reflexiva...
    Abraço a você e a Morgana.
    Bons dias no oeste.

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