sexta-feira, 21 de maio de 2010

Chima do encontro, da prosa


Num fim de tarde qualquer, já com os cabelos cobrindo as orelhas, resolvi fazer uma visita a um barbeiro que até então eu desconhecia, mas que mantinha seu ponto há muito tempo em Chapecó, segundo ele mesmo. Lá chegando, fui recebido com muito entusiasmo, o que me deixou à vontade para explicar que ele era a minha tentativa desesperada de dar um belo trato no telhado, pois o corte anterior feito por uma cabeleireira tinha sido um lixo, cheio de caminhos de rato. Sem querer ser machista, gostaria de dizer que, dentro da faixa de preço de corte que procuro, sou a prova viva de que muitas profissionais não sabem cortar bem o cabelo de homens, apesar de colocarem os dizeres “cabeleireira” e “unissex” em seus salões – salvo raras exceções, claro. O contrário dificilmente vai acontecer. Geralmente não vemos um estabelecimento com os dizeres “barbeiro” e “unissex”. E é raro vermos um barbeiro que não saiba cortar direito o cabelo de homem. Bom, me desviei um pouco do assunto. Deixo para outro momento esse manifesto contra certas cabeleireiras.
Durante o corte de cabelo, entrou de repente um antigo amigo do barbeiro. E os dois não pararam mais de conversar. Dentre tantos assuntos, o visitante alertou o amigo de que seu trabalho era agora o de cuidar de um estacionamento. Aí a conversa embalou. Foram tantos esclarecimentos sobre o novo emprego e sobre como ele tinha conseguido se reerguer após a falência de sua pequena empresa, que eu me perdi. Então ele disse para o barbeiro o que mais nos interessa aqui. Diante de tanta vontade de continuar a conversa, mas impossibilitado de fazer isso por causa do horário de trabalho, ele convidou o amigo para passar no estacionamento, na manhã do dia seguinte, para tomar um chimarrão e prosear mais.
Aquilo para mim foi muito interessante. Refleti naquele momento sobre o uso social do chimarrão, sobre como aquela cuia cheia de erva e água quente se parece com o chá, ao menos no quesito evento social de interação. Foi como se um homem estivesse convidando outro para tomar chá, convite que historicamente é visto como mais feminino. Achei bacana. Mineiro que sou, sei que é diferente de quando convidamos alguém para tomar um café em nossa casa. Você não fica durante muito tempo tomando café, a não ser que coma biscoitos, bolos e tal. Não se trata aqui de dizer que o chimarrão é melhor que o café, pois são bebidas e eventos totalmente diferentes. A diferença do chimarrão é o fato de que as pessoas podem passar horas bebendo e proseando, coisa que é mais difícil de acontecer com o café. Além disso, há todo um ritual de utilizar a mesma cuia para todos, de numa roda de amigos obedecer a ordem de passá-la para o companheiro, de não mexer na bomba, de não agradecer quando se recebe a cuia, a não ser que se tenha parado de tomar o chima etc.
Desde que conheci o chima em Florianópolis, não parei mais de tomá-lo. Acho muito bom o sabor, e é melhor ainda o evento de tomar o chima na companhia dos amigos. Aqui em Chapecó continuo fanático pelo café preto, forte, quase sem açúcar, que é um deleite só e continua sendo para mim uma referência de encontro com os amigos queridos. Mas faz um tempo que incluí o chima como uma outra referência desse tipo. O café é intenso, o chima é extenso; o café pede um pão de queijo, o chima uma água bem quente, quiçá um belisquete doce; o café desperta, motiva, o chima também. Café e chima, para que escolher? Bom mesmo são os dois, nessa ordem...

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