segunda-feira, 10 de maio de 2010

Noite de lassidão das entranhas



Num canto de se viver sobre este vasto chão, debaixo de uma constelação de não-saberes, acima da história daqueles que já ousaram existir, uma criança grita e se contorce de dor numa madrugada fria.

A boca brame, manifesta a sensação fortemente desagradável que inunda o pequeno corpo e o afoga. É o descompasso das vísceras que dilaceram o que antes era silêncio naquele quarto. Em seu funcionamento, as entranhas pueris têm dificuldade para digerir o que outrora era alimento prazeroso que descia pela boca. O que agora emperra e trava a finalização do curso natural de devorar o exterior, foi anteriormente preparado por diversas mãos bondosas que trabalharam na manufaturação da comida.

Sem saber cozinhar, a criança sempre recebia dentro de si as coisas do mundo preparadas pelas mãos bondosas. Mas a bondade das mãos, a perfeição na preparação do jantar e o prazer que este proporcionou à criança não foram capazes de isentá-la de sua dor naquela madrugada. Como em poucas noites anteriores, algo havia dado errado; alguma coisa falhara, ou as mãos bondosas se esqueceram de averiguar com cuidado o estado dos ingredientes que seriam tragados infantilmente.

Não havia remédio imediato para a criança, já que lhe doía exatamente a região responsável pela absorção dos remédios. Restava-lhe berrar. O mais alto possível, o mais forte possível, o mais estridente possível. A situação era tão extrema que a criança permanecia impassível a qualquer estímulo ou coisa exterior que, provavelmente, causar-lhe-ia mais dor. Permanecia, pois, indiferente ao externo, este outrora digerido, e que agora lhe comovia dolorosamente o ventre.

O problema da criança era com sua carne, com seu corpo, com suas vísceras irredutíveis ao exterior real ou imaginário que a cercava. Suas vísceras eram a corporificação de sua alma. Uma alma que naquele momento não estava dando conta de expurgar o que era proveniente do exterior e que se tornara toxina dentro dela, toxina cuja raiz filiava-se ao alimento preparado pelas bondosas mãos-fé-razão.

Naquela noite de lassidão, exterioridade e interioridade não se consumiram, não se processaram. Em dias normais, o resto desse encontro seria expelido, como de costume. Por ser este resto coisa fétida, o contato com ele tinha sido evitado sempre. Os motivos dessa esquiva eram as regras da higiene-religião.

As bondosas mãos lavavam a si próprias antes de cozinhar, por causa das referidas regras de asseio. De tanto as mãos não tratarem do resto corrupto e não quererem se sujar; de tanto não observarem e não cuidarem do resto deteriorado; de tanto desviarem-se dele, agora as vísceras da criança ardiam.

Não havia pai, mãe, filho ou qualquer pessoa que pudesse fazer parar aquela dor. O sofrimento da criança era seu por direito, direito adquirido desde que ela havia se tornado uma unidade separada do mundo, desde que seu intestino-pensamento começou a expelir inconscientemente tudo aquilo que era remanescente. Era seu por direito, direito reivindicado pelo rugido da matéria, da coisa posta, molecular e material, que subjaz ao desdobramento que possibilita à carne servir-se de subjetividade. Pode-se dizer, portanto, que havia também, nos gritos da criança, traços do eco de outros rugidos, rugidos estes vindos daquilo que era exterior ao próprio interior do menino.

Havia sofrimento naquela madrugada, exatamente por causa do acúmulo da sobra repugnante no ventre da criança, esse resto putrefeito, de que todos querem se esquivar; esse impossível de se pensar-significar, essa perda imune à criança. Tal resto embargado era proveniente da diferença do acoplamento, momentaneamente defeituoso, entre o exterior (sensível e racionalizado, por isso, fantasioso) e o interior da alma (aquilo que supostamente se é). Naquela madrugada, era esse resto que fazia a criança, quase sempre virtuosa, urrar de dor.

Situação triplamente distinta: estado infantil, miserável e visceral de permanecer onde não se pode não estar. Mas eu não tenho vivido de outro modo.

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