terça-feira, 18 de maio de 2010

Peter Pan

(Continuação do post anteior)
A comida preparada pelas “bondosas” mãos-fé-razão alimenta, nutre. Parece ter sido feita para isto: manter a pequena criança-homem viva, cheia de energia para descobrir os sentidos do mundo exterior que dela depende para ter sentido. Esse alimento é necessário. Mas de vez em quando a comida que é devorada com prazer por racionalistas ou por homens de fé provoca constipação. É o resto embolado no ventre, apodrecendo por não ter sido expelido pelo intestino-pensamento-mente. De vez em quando, algo na digestão de sentidos não vai bem; às vezes, o alimento causa dor. Por isso a criança urra na madrugada.

Essa criança nunca crescerá. Peter Pan que é, viverá eternamente pueril. Ela nunca aprenderá a preparar o próprio alimento. Vivendo na terra do nunca, ela sempre existirá sob o jugo de fantasias e de fantasmas infantis. Seus pais ficaram no outro mundo, no apartamento em que moravam. A criança foi sozinha para a terra do nunca, quando ainda era muito pequena. Por isso, não conheceu de fato os pais, pois para que isso acontecesse, ela precisaria crescer, e isto era impossível na terra do nunca.

Por que os pais da criança não haviam impedido o menino de ser levado para essa terra enigmática? Em dias de constipação e de dor, a criança se perguntava isso. Por que não o impediram de ser eternamente infantil? Por que não o impediram de ser eternamente dependente dos cuidados das bondosas mãos?

Haveria perdão para uma displicência paterna como essa? Bom, tudo que a criança queria era sair da terra do nunca e voltar para casa, para o seu apartamento. Mas ela queria voltar como criança, para crescer sob os cuidados da mãe e do pai e, assim, conhecê-los gradativamente, como no despertar de um sono. Inclusive, ela queria perguntar aos pais por que eles não o impediram de ir para a terra do nunca (isso porque a criança não sabia que ela havia entrado nessa terra estranha sem que seus pais soubessem; ela não sabia sobre o quanto seus pais a queriam de volta, o quanto eles sofriam por não terem podido fazer nada na noite em que a criança sumiu; eles não viram nem ouviram quando seu filho desapareceu; ela não sabia que eles não tomaram consciência do que havia acontecido).

O fato é que sair da terra do nunca era irremediavelmente impossível. Mas era exatamente esse desejo de sair de lá que motivava a criança a brincar e a tentar encontrar uma maneira de voltar para casa.

Estado perpétuo da santa tolice, esperança que não cessa de se reinventar. Terra de ficção volúvel. Desrealidade em que vivo. Tento encontrar um caminho de voltar para casa.

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